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Tarifa dos EUA não é um ‘beco sem saída’ e abre janela de negociação, dizem analistas

 Proposta tarifária de 25% para produtos brasileiros reacende dúvidas sobre as negociações do governo Lula com Trump.

A nova ofensiva tarifária do governo de Donald Trump contra o Brasil recolocou em xeque os esforços diplomáticos que, no fim de 2025, ajudaram a reduzir a sobretaxa de 40% imposta a produtos brasileiros, o famoso tarifaço. Agora, com a proposta de uma nova tarifa de 25%, cresce a preocupação de que as cobranças possam se somar a outras medidas já em discussão.

A investigação conduzida pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) aponta supostas práticas comerciais desleais do Brasil em áreas como comércio digital, propriedade intelectual, combate à corrupção, mercado de etanol e fiscalização ambiental.

O governo brasileiro tem até 15 de julho para apresentar respostas consideradas satisfatórias por Washington.

Embora a nova ameaça tarifária tenha levantado dúvidas sobre os resultados das negociações do ano passado, especialistas ouvidos pelo R7 avaliam que o trabalho diplomático não foi em vão.

Movimentações

Para o advogado licenciado nos Estados Unidos Vinícius Bicalho, a redução tarifária conquistada anteriormente demonstrou que o diálogo entre os dois países continua sendo um instrumento relevante para a defesa dos interesses brasileiros.

“O surgimento de novas discussões tarifárias não invalida os avanços conquistados, mas evidencia que a relação comercial exige acompanhamento contínuo e capacidade de adaptação por parte dos governos e do setor privado”, acredita.

A professora de Relações Internacionais e Economia da PUCPR, Ludmila Culpi, avalia que a nova tarifa anunciada pelos Estados Unidos deve ser encarada principalmente como uma ferramenta de pressão política e comercial.

“A estratégia de Trump é simples: apertar o suficiente para arrancar concessões do Brasil, mas sem destruir uma relação comercial que também interessa aos americanos”, afirma.

Na avaliação da especialista, uma reversão completa da medida é improvável, mas há espaço para uma solução negociada antes do prazo final.

“Reversão total é improvável. Mas um acordo parcial é possível, eu diria entre 55% e 65% de chance.”

Ela argumenta que o próprio histórico da legislação comercial americana mostra que a tarifa costuma funcionar mais como mecanismo de barganha do que como punição definitiva.

Além disso, segundo Culpi, os Estados Unidos preservaram da nova ofensiva alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil, como petróleo, minério de ferro, café, carne, celulose, suco de laranja e aeronaves, responsáveis por cerca de 75% das vendas brasileiras ao mercado americano.

Tarifas podem se somar

Uma das maiores preocupações do setor produtivo é a possibilidade de que a nova tarifa seja acumulada com outras medidas em discussão, elevando significativamente a carga tributária sobre determinados produtos brasileiros.

Segundo Ludmila Culpi, o cenário é juridicamente possível.

“As duas investigações usam o mesmo instrumento legal, a Seção 301, mas têm justificativas distintas. Juridicamente, nada impede que sejam aplicadas ao mesmo tempo e sobre os mesmos produtos”, explica.

A Seção 301, a que Culpi se refere, é o mecanismo da lei de comércio norte-americana usado pelo governo de Trump para justificar as tarifas.

As justificativas são:

  • Tarifas preferenciais e desleais
  • Fiscalização anticorrupção
  • Proteção da propriedade intelectual
  • Acesso ao mercado de etanol
  • Desmatamento ilegal;

No cenário mais extremo, a combinação das medidas poderia levar a taxações próximas de 47,5%, considerando também tarifas de base já existentes. Ainda assim, ela considera mais provável que as investigações sejam utilizadas como instrumentos de negociação.

“O cenário mais provável é que as duas investigações virem alavanca numa negociação única, e o número final seja menor que a soma das partes — algo como uma tarifa negociada entre 15% e 25% em troca de concessões brasileiras”, afirma.

Outros parceiros comerciais

Apesar do clima tenso entre os dois países, os especialistas afirmam que os EUA são um parceiro comercial importante e não substituível.

“Os americanos continuam sendo uma das maiores economias do mundo, um dos principais destinos para produtos industrializados brasileiros e uma fonte relevante de investimentos. Já a China, por sua vez, desempenha papel fundamental para o Brasil, especialmente na demanda por commodities e matérias-primas. Trata-se de um parceiro comercial indispensável”, ressalta Bicalho.

Na mesma linha, o especialista em relações internacionais e economia internacional Carlos Alexandre Fermanian afirma que o principal desafio do Brasil é ampliar sua competitividade e diversificar destinos de exportação.

“O verdadeiro debate não é ‘EUA ou China’. O verdadeiro debate é como tornar o Brasil mais competitivo, menos burocrático e mais integrado à economia global. Quando fazemos isso, as tarifas dos outros países passam a ter menos poder sobre o nosso destino”, conclui.




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