O entorno do senador vem minimizando a crise com a madrasta e diz que os trackings internos não mostram mudança de rota no eleitorado. As pesquisas BTG/Nexus e AtlasIntel/Bloomberg também apontam que o senador parou de cair nas simulações de primeiro e segundo turno.
A aposta é que, quando passarem as convenções — ou seja, quando o eleitorado perceber que os candidatos são Lula (PT) e Flávio Bolsonaro — naturalmente vai haver uma migração de intenções de voto para o parlamentar. Um aliado resume essa leitura de forma categórica. “Nenhuma mulher evangélica deixará de votar em Flávio porque Michelle pediu”.
A avaliação também é que a influência direta de Michelle está concentrada em um nicho específico do eleitorado e, por isso, teria alcance limitado sobre o conjunto dos eleitores da direita. Ainda assim, interlocutores da campanha reconhecem que ela continua sendo uma das principais lideranças do campo bolsonarista e que seus movimentos não podem ser ignorados.
Os números também mostram que a combinação desses segmentos da sociedade pode ser decisiva — ainda mais numa disputa polarizada e apertada como esta.
As mulheres representam hoje 52,8% do eleitorado brasileiro e, historicamente, comparecem às urnas em proporção superior à dos homens. Em 2022, por exemplo, elas correspondiam a 52,6% dos eleitores aptos a votar, mas responderam por 53,1% dos votos efetivamente registrados. Na prática, a combinação entre maior participação no eleitorado e maior taxa de comparecimento fez com que o eleitorado feminino tivesse um peso cerca de seis pontos percentuais superior ao masculino na votação.
Os evangélicos, por sua vez, representam cerca de 27% da população brasileira, o equivalente a aproximadamente 47 milhões de pessoas. Dados do IBGE mostram que 56% desse contingente é formado por mulheres. Nesse contexto, uma perda de apoio, ainda que limitada, entre as eleitoras evangélicas pode comprometer a estratégia de Flávio de ampliar sua base para além do núcleo mais fiel do bolsonarismo.
As mulheres, historicamente, rejeitam a família Bolsonaro. Já os evangélicos resistiam a Flávio Bolsonaro desde o princípio. O bispo Robson Rodovalho disse, em entrevista ao jornal O Globo, que o evangélico perdeu a confiança no senador por não falar a verdade sobre o banqueiro Daniel Vorcaro. O testemunho é relevante e anterior ao caso do vídeo de Michelle.
A verdade é que, apesar dos esforços dos bombeiros (ou, mais notadamente, “O” bombeiro Valdemar Costa Neto), hoje é praticamente impossível que Michelle entre na campanha do enteado. Há mágoas muito anteriores ao episódio do Ceará, que precipitou os vídeos. Flávio tem buscado, publicamente, se abster da briga, mas Michelle ameaçou: ela disse que contou “QUASE” tudo. Assim mesmo, em caixa alta.
O senador entende que ela poderia ajudar muito na campanha, mas estava precificado que não o faria. Seus aliados torciam, antes da crise, que ela ao menos fosse a um evento e, sobretudo, não atrapalhasse.
Agora, tampouco seguram a militância de criticá-la nas redes sociais — algo que a ex-primeira-dama tem observado com cautela. Ela se incomoda com os ataques abertos de Eduardo Bolsonaro e seus seguidores e se queixa do fato de que Flávio publicamente faz gestos, mas não impede o irmão de atacá-la.
Abrir mão do PL Mulher seria um gesto para demonstrar que Michelle não está na política pela política. Mas o principal sinal de que a ex-primeira-dama faz, sim, política, ao contrário do que disse Flávio Bolsonaro na conversa que tiveram no ano passado, é que ela não abriu mão de sua candidatura — ao menos, por ora. Ela está praticamente eleita pelo Senado pelo Distrito Federal, segundo pesquisas.
O entorno do senador destaca que ele já pediu desculpas e a convidou para participar de evento da pré-campanha nesta quarta (1º/7). Mas Michelle se ressente de que os gestos são apenas públicos e aguarda um sinal a portas fechadas.
Essa “DR” parece não ter qualquer previsão de ocorrer. Enquanto isso, o evento para discutir medidas com as mulheres ficará esvaziado de lideranças importantes do bolsonarismo — Michelle e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), além de outras parlamentares aliadas.
Certamente, deputadas estarão ao lado de Flávio e, neste momento, ganha maior relevância na pré-campanha Daniella Marques, até mesmo por ser a única no “primeiro escalão” do time.
O único cenário que poderia suscitar uma união da família seria caso o Supremo Tribunal Federal (STF) determinasse o retorno de Jair Bolsonaro (PL) para a Papudinha — outra possibilidade considerada improvável. Será preciso acompanhar as próximas pesquisas para medir o impacto do quanto a polarização pode ou não ser mais forte do que o eleitorado feminino.
A incógnita é o tamanho da cicatriz que a crise deixará até outubro.
Com Jota Info





