Já as forças de Volodimir Zelenski promoveram um ataque inédito no mar Negro, com dois drones aquáticos afundando um navio de contêineres pertencente a uma subsidiária da gigante de energia nuclear russa, a Rosatom. Não houve feridos e, aparentemente, nenhum material radioativo estava a bordo.
A troca de fogo de lado a lado foi intensificada nos últimos meses, reflexo do impasse no processo de negociação que os Estados Unidos haviam tentado promover. O conflito no Irã fez o governo de Donald Trump mudar de foco prioritário.
Segundo levantamento da agência de notícias francesa AFP, houve uma mudança na postura tática dos ataques russos em julho, depois que a Ucrânia passou a atacar a infraestrutura petrolífera do vizinho, provocando uma crise de desabastecimento de combustível que afetou a popularidade de Vladimir Putin.
Ao longo do mês, foram lançados 376 mísseis contra a Ucrânia, boa parte concentrada na capital. Desses, 126 eram modelos balísticos, muito mais difíceis de interceptar -em 2024, Moscou disparou cerca de 200 dessas armas contra o vizinho invadido em 2022.
Nesta sexta, 27 dos 35 mísseis empregados eram balísticos -houve também o uso de 4 modelos hipersônicos, 2 de cruzeiro e 2 antirradar. Além disso, os russos lançaram 185 drones.
Como de costume, os aviões-robôs buscam saturar as defesas aéreas, e 154 deles foram abatidos. Mas apenas um míssil balístico, provavelmente um Iskander-M, e um modelo de cruzeiro subsônico Kh-69 foram derrubados.
O resultado foi o grande número de mortos. O mais mortífero ataque a Kiev até aqui na guerra foi em 2 de julho, quando 32 pessoas morreram na capital. Desde então, Zelenski vem pedindo aos EUA o fornecimento de mais mísseis para os sistemas antiaéreos Patriot.
O presidente comentou o fracasso da defesa aérea. “Apenas um míssil balístico foi interceptado simplesmente porque não há interceptadores para os sistemas Patriot. Essa escassez apenas encoraja a Rússia a lançar tais ataques”, escreveu no X.
Dados do Instituto Kiel (Alemanha) mostram que 10 baterias de Patriot foram doadas à Ucrânia na guerra, a maioria (5) por Berlim. Ao menos 2 foram destruídas.
No encontro que teve com Trump na terça passada (28), Zelenski pediu novamente o fornecimento dos mísseis, que estão em falta por também estarem sendo empregados de forma maciça pelos EUA e seus aliados no Oriente Médio.
Já o presidente americano recuou de sua aparente promessa de permitir a fabricação sob licença dos armamentos na Ucrânia ou em algum país europeu aliado de Kiev, dizendo que a tecnologia era muito sensível para ser transferida.
Os russos anunciaram também neste sábado a tomada de mais duas vilas, uma em Kharkiv (norte) e outra em Zaporíjia (sul), mantendo a lenta erosão das bastante inalteradas linhas de batalha desde que tiveram um avanço importante no começo de julho em Donetsk (leste).
Apesar das ações, o ucraniano buscou manter o moral doméstico ao celebrar o inédito ataque ao navio da Rosatom no mar Negro. Sem citar a estatal de energia nuclear, a maior empresa do setor no mundo, disse que o navio Ianina carregava até 100 mil toneladas em contêineres.
O navio estava na região do porto de Novorossisk e transportava material de construção e comida congelada, segundo a Rosatom. Ele era operado pela Fesco, uma subsidiária de transporte com uma frota de cerca de 30 navios.
“Todos os 17 tripulantes foram resgatados e estão em boas condições. Um ataque desses não pode ser interpretado de outra forma senão pirataria e roubo no mar”, disse em nota o presidente da estatal, Alexei Likhatchev.
A própria Rosatom também tem sua frota marítima, composta por cerca de 35 navios de propulsão convencional e 8 movidos a energia nuclear, 7 deles gigantescos quebra-gelos que operam no Ártico. A empresa não relatou nenhum conteúdo radioativo no Ianina.
Ainda na região do mar Negro, a Rússia promoveu ataques contra os portos de Odessa e Mikolaiv, atingindo instalações e ao menos um rebocador.
Já os ucranianos também mantiveram sua campanha contra a energia russa nesta madrugada, alvejando segundo Zelenski três refinarias no país vizinho.
Enquanto aumenta a pressão sobre Putin, o presidente também enfrenta problemas domésticos, com a sexta (31) registrando mais um dia de megaprotestos contra a demissão do popular ministro da Defesa Mikhailo Fedorov.
Com Folhapress





