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Dois pesos e duas medidas: até quando a lei brasileira será igual para o cidadão e diferente para os políticos? Por Carlos Alcides

 

Que ponto chegou o nosso país? O Brasil, uma nação de dimensões continentais, com riquezas naturais, diversidade cultural e enormes potencialidades econômicas, parece cada vez mais dividido no imaginário popular entre dois grandes campos políticos: direita e esquerda.

Enquanto essa divisão ocupa o centro dos debates, milhões de brasileiros continuam enfrentando problemas que ultrapassam as disputas ideológicas. Entre eles está uma questão fundamental para qualquer democracia: o respeito às leis e a garantia de que elas sejam aplicadas de maneira igual para todos.

O Brasil possui uma legislação extensa e instituições responsáveis por fiscalizar e fazer cumprir as normas. Mas uma pergunta permanece na cabeça de muitos cidadãos, especialmente daqueles que vivem nas periferias e pertencem às camadas de menor renda: será que a lei realmente vale da mesma maneira para todos?

Essa pergunta ganha ainda mais força durante os períodos eleitorais.

É comum que, durante campanhas políticas, determinadas práticas que normalmente poderiam resultar em fiscalização e autuação sejam vistas pelas ruas: motocicletas circulando com alterações no sistema de escapamento, equipamentos de som em volume elevado, veículos utilizando equipamentos sonoros de maneira irregular e eventos que provocam perturbação do sossego público.

O problema não está em defender este ou aquele lado político. O problema está em defender o princípio de que a legislação deve ser respeitada independentemente de quem esteja envolvido.

Se um trabalhador tem sua motocicleta apreendida por uma irregularidade prevista na legislação, ele precisa ter o direito de compreender por que a medida foi tomada e quais são os procedimentos para regularizar sua situação. Da mesma forma, uma pessoa que utiliza um equipamento de som em sua residência deve respeitar as normas relacionadas ao sossego público.

Então surge uma questão legítima: se a fiscalização existe para o cidadão comum, ela também não deveria existir quando a situação ocorre em ambientes relacionados a atividades políticas e eleitorais?

A democracia não pode funcionar com uma regra para alguns e outra para outros.

Também é necessário reconhecer que policiais militares, agentes de fiscalização e demais servidores públicos responsáveis pelo cumprimento da legislação precisam ter condições de exercer suas funções com independência, dentro da lei e sem sofrer pressões indevidas.

Caso existam situações concretas em que um agente público tenha sido transferido, removido ou sofrido qualquer tipo de retaliação por cumprir suas atribuições, isso precisa ser investigado pelos órgãos competentes. Uma acusação dessa natureza não pode ser tratada apenas como comentário de rua; precisa ser apurada, documentada e, se comprovada, responsabilizar quem tenha praticado eventual abuso.

O mesmo princípio vale para os políticos. 

Nossos representantes são escolhidos pelo voto popular e, justamente por ocuparem funções públicas, deveriam compreender que o exemplo começa pelo respeito às próprias regras que ajudam a construir.

Não se trata de defender direita ou esquerda. Trata-se de defender o Estado de Direito.

A legislação eleitoral estabelece regras específicas para as campanhas, enquanto outras normas regulam questões como trânsito, poluição sonora, perturbação do sossego e funcionamento das atividades públicas. O fato de estarmos em período eleitoral não significa que todas as demais regras deixem de existir.

Ao contrário: durante uma eleição, quando os olhos da população estão voltados para os candidatos e para as instituições, o respeito à lei deveria ser ainda mais evidente.

O cidadão mais humilde não pode ter a sensação de que a legislação é rigorosa quando aplicada contra ele e flexível quando envolve pessoas politicamente influentes.

Essa percepção, verdadeira ou não em cada caso concreto, é perigosa para a democracia porque alimenta a descrença nas instituições.

Precisamos superar a ideia de que o Brasil pertence à direita ou à esquerda. O Brasil pertence aos brasileiros.

Pertence ao trabalhador que utiliza sua motocicleta para ganhar o sustento da família. Pertence ao comerciante, ao agricultor, ao estudante, ao aposentado, ao empresário e a todos aqueles que diariamente cumprem suas obrigações.

E pertence também àqueles que ocupam cargos públicos.

Por isso, a pergunta que fica é simples, mas profunda: até quando o cidadão brasileiro terá de perguntar se seus direitos são realmente iguais perante a lei?

Não precisamos de uma lei diferente para cada grupo político. Precisamos que as leis existentes sejam cumpridas com critérios objetivos, transparência e respeito ao devido processo legal.

Se alguém comete uma irregularidade, que seja responsabilizado de acordo com a legislação. Se não cometeu, que tenha assegurado o direito de não ser punido injustamente.

Esse deve ser o princípio básico.

O Brasil tem riquezas que ainda precisam ser melhor conhecidas, administradas e transformadas em qualidade de vida para sua população. Mas nenhuma riqueza natural será suficiente se perdermos a confiança nas instituições e na igualdade perante a lei.

Direita e esquerda podem continuar disputando espaços políticos. Isso faz parte da democracia.

O que não podemos aceitar é que a disputa política seja utilizada como justificativa para desrespeitar as regras que deveriam valer para todos.

A lei não pode ter lado. A cidadania também não. 

E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes perguntas do Brasil de hoje: não sobre quem está certo ou errado na disputa entre direita e esquerda, mas sobre quando conseguiremos construir um país em que o cidadão comum tenha a mesma proteção e esteja submetido às mesmas regras que qualquer autoridade ou liderança política.




Por Carlos Alcides

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